Confesso que possuo um péssimo hábito: tomar as dores dos meus clientes. Isso é péssimo demais para um profissional. E por acaso, demonstra um certo tipo de amadorismo.
Devo fugir dessa incipiente característica que deseja tomar conta da minha rotina enquanto consultor.
A esse respeito já ouvi alguns professores efetuarem uma comparação. Eles dizem que a consultoria é semelhante ao exercício da medicina. Você tem que diagnosticar problemas, e auxiliar em suas correções. Nunca ter a pretensão de ser um curador, ou um milagreiro.
Esse é um grande filão explorado por muitos palestrantes, daqueles no estilo Bernardinho, não é mesmo?
Então, caros amigos que me acompanham nessa viagem. Quando estou em meio a um trabalho degradante lembro-me de uma entrevista daquelas de jornal. Em que o guru dizia que o contratado deveria escolher o contratante. Em outras palavras aquele que vende sua força de trabalho deveria selecionar para quem vende. Princípio simples e eficaz em um capitalismo de terceiro mundo.
É que existe mais furada do que oportunidades recompesadoras por aí. Veja o exemplo de uma ONG na qual trabalhei ano passado. Foi um negócio que começou com uma oferta tentadora por telefone e aos poucos o sonho transformou-se em pesadelo, eu pagava minha passagem, alimentação. Enfim, paguei para trabalhar e sustentar um cenário suspeito. O pior não é o dinheiro que se perde, mas o pior é servir de ponta em um processo de desvio de recursos de governo e empresas…
Mas isso é passado. Hoje estou longe de ONG’s e coisa parecida. Porém estou próximo à micro empresários.
Ainda tenho muito a dizer sobre eles. Não sei se devo revelar tudo. Afinal quem contrataria um cara que coloca na internet detalhes sobre essa contratação. Mesmo que não me refiro abertamente. Mesmo que procuro sublimar, relativizar e algumas vezes falar em eufemismos acabo por entregar detalhes picantes dessas relações conturbadas em que passo na minha carreira profissional.
É verdade que mantenho a ética de não citar nome de empresas, muito menos de pessoas por aqui. Talvez por isso não vejo problema em falar de alguns detalhes que confesso: Não consigo guardar para mim.
INSEGURANÇA
Geralmente portadores de arma são covardes. Pronto falei. Eu acho gente que fala alto, que ameaça, que carrega arma, enfim, para mim a violência e suas formas de expressão derivam da covardia. É só pensar na reação de Bush ao 11 de setembro. Veja a que ponto um povo com medo é capaz de chegar. Mas não é de política internacional que desejo falar…
Ao falar de covardia gostaria de chegar em outro ponto que fecha todo o raciocinío da primeira secção desse texto. A ascensão econômica geralmente carrega esse comportamento: Insegurança. Mudar de posição social carrega esse sentimento. Os micro-empresários trazem dentro de si o medo do novo. Cada dia surge diante deles novidades mil. De cara eles que já estão decepcionados com a sua assessoria contábil, descobrem estar à margem da lei. Pagam caro e não recebem orientações sobre nada. Nem finanças, vendas, marketing, Adm de pessoal, nada. A estrutura cresce exponencialmente. Em bairro de periferia nem se fala. Ganha-se muito dinheiro e rápido, pois as relações tanto com empregados, como com clientes são catalisadas pela informalidade.
A insegurança a que me refiro reside nos atos de violência, sejam elas de maneira verbal, gestual. E acima de tudo a violência econômica. A necessidade de humilhar o próximo e demonstrar a todos seu perfil patriarcal. É evidente que esse comportamento é facilitado pelo contexto de precariedade em que o povo vive. Você não imagina como alguém que pode “adiantar” R$ 100,00 em dinheiro tem importância para os trabalhadores pobres. Eu arrisco dizer que um micro-empresário em um bairro de periferia chega a ser venerado em algumas circurstâncias.
Centrando mais o tema da insegurança. Ela pode ser facilmente detectada por qualquer pessoa com boa formação intelectual. Aliás, ao conversar uns 10 minutos e observar gestos, palavras, e expressões desses micro-empresários, iremos perceber uma ideologia visivelmente adquirida. Há pouca personalidade. Existem muitas palavras encaixadas, frases de efeito que claramente não pertencem ao ser que as profere.
É evidente que esse comportamente surte efeito pelo menos entre a gentalha que adora ser capacho. Eu tenho uma teoria particular que aprendi com minha própria família. É verdade. Minha família quando me sugere procurar um curso noturno, ou uma faculdade “mais fácil” reproduz uma herança da mediocridade. Herança essa que eu rejeito. Na verdade essa herança é transmitida de periferia para periferia, de pobres para pobres, é o eco daquele orgulho petista em ter como presidente um iletrado trabalhador.
O importante é ter importância, a revelia de como se atinje essa importância. Não interessa se é por mérito intelectual ou por tirania. Sim, eu ouvi essa frase a respeito do lula. Foi um professor de cursinho que o classificou dessa forma e faz sentido. Eu sei que a classificação é forte. Mas veja bem: tirano é alguém que não passa por um processo normal de ascensão ao poder, ele pula etapas e esse é claramante o estigma do nosso presidente operário.
E porque me refiro ao exemplo de um político para fechar meu texto? Nada é mais esclarecedor do que essa experiência pela qual estamos a viver. Nós brasileiros percebemos um poder confuso, arbritário. O poder petista ou lulista é uma coisa estranha. Não é poder legítimo, não é poder conquistado, é um poder imposto. A sensação que esse poder nos passa é que ele tinha que acontecer, daquele tipo: vocês tem que me engolir.
Pois bem, boa analogia essa para explicar sobre a insegurança dos micro-empresários em regiões da periferia brasileira. Parece que assim como o presidente governa um país periférico, com o apoio de uma massa analfabeta e hávida por bolsas assistenciais. Dessa mesma forma, surgem nos recantos mais escondidos dos nosso país, homens com sede exercer esse tipo de poder. Eu não sei se lula e o PT são manifestações políticas ou retratos fiéis de uma rotina que nos cerca em todos os lugares onde a imposição patriarcal governa.
Sim caros. Muita gente obedece e ama por obrigação. Tomara que um dia tenhamos uma relação diferente com os detentores de poder. Eu não sei se é possível. Talvez é mais uma utopia minha. Talvez a covardia é inerente ao exercício do poder. Tanto a covardia de quem manda quanto a ignorância de quem obedece.
Quando nos desprenderemos dessas amarras?? Quem sabe com menor romantismo em nossas relações trabalhistas. Afinal o trabalho nunca foi uma relação harmoniosa. Ele surge em função de diferenças. Na abordagem desse texto, diferenças sociais. Mas e se o contratado descobrir que o necessitado é o contratante. Que o dinheiro não é a venda mas a compra da sua força de trabalho. E como tal deveria ser um produto dos mais valiosos. Como alguém ignorante e analfabeto pode ser dar conta disso?
Então caro amigo você ganha pouco pelo que faz?? Deixe de ser romântico pelas razões que expus acima. Seus contratantes são covardes? São inseguros! Eles gritam? Estão com medo!
Aqui nesse texto não há nada de clamar união de proletariado. É somente uma exposição de fatos que as pessoas deveriam se dar conta quando constroem o patrimônio alheio.


