
Após alguns meses surgiu uma suspeita. Aquela cidade não era tão especial para se gastar tanto tempo e dinheiro. Alguém foi além e disse que aquela cidade nem tão esférica e bonita era.
Houve um tempo em uma cidade não muito distante em que alguns empreendedores perceberam um potencial incrível para fazer dinheiro. Essa cidade era diferente de todas as outras do mundo. Por quê? segundo o consultor de marketing Iaba Quib, ela continha uma nuvem esférica comunicacional nunca antes vista em outro lugar do planeta.
Então elegeram os mais bonitos, escolheram os mais eloquentes, os mais ricos, os melhores conselheiros, os mais engraçados, todos para formar um grupo que demonstraria esse poder ao mundo. Na verdade eles nem sabiam explicar esse poder, só sabiam que ele funcionava, e como. Logo surgiram grandes corporações que pagavam para que essas pessoas tivessem mais tempo entre suas profissões e a atividade de promoção da cidade.
O sistema de pagamento era simples. Cada vez que alguém visitava sua casa o cidadão recebia um centavo de dólar. Parece nada, mas os primeiros ficaram ricos. Talvez você não acredite mas até Juízes e Médicos deixavam de lado suas rotinas para explicar como seu trabalho naquela cidade era mais especial do que em outras.
Logo surgiram maneiras de otimizar as buscas por endereços, isso para que pessoas até de outros países encontrassem com facilidade as casas na cidade esférica, como ficou conhecido o lugar. Além disso descobriu-se que a aparência da casa poderia influenciar na atração ou rejeição de visitantes. Então surgiram algumas profissões novas como: arquiteto e engenheiro de buscas, por exemplo. Outros profissionais se especializaram em criar meios de divulgar como divulgar os endereços e ganhar mais dinheiro com isso.
As cidades vizinhas se assustaram como o restante do mundo passou a se interessar tanto pelos assuntos tratados na esférica cidade. Elas acharam meios de coligação; enviaram presentes; fizeram eventos; criaram congressos e chamaram os maiores entendedores daquela cidade para ensinar como ela funcionava.
Alguns eventos limitavam-se a mostrar um mapa com os pontos mais lucrativos da cidade. Esses eventos custavam cerca de R$ 300,00 a entrada. O auge foi um evento com direito a visita guiada, somente para criativos, ou seja, gênios publicitários, esse custou R$ 1.500,00 por cabeça, e o ingresso esgotou-se um mês antes do acontecimento.
Mas se você não fosse tão criativo, haviam outros eventos, como o esfero-campi e o esfero-party que custavam cerca de R$ 150,00, com direito à dois dias de palestras para discutir o futuro da cidade. Mas se você não tivesse criatividade nenhuma mesmo, poderia pedir uma doação aos seus visitantes e ir em alguma festa esférica, essas muito mais informais e legais.
As pessoas que defendiam causas; os intelectuais; os músicos; artistas; todos queriam interagir com a cidade e aproveitar aquela agitação. Alguns chegaram a alugar, ou comprar espaços somente para aparece lá, e mostrar ao restante do mundo que entendiam sobre a revolução esférica.
Após alguns meses surgiu uma suspeita. Aquela cidade não era tão especial para se gastar tanto tempo e dinheiro. Alguém foi além e disse que aquela cidade nem tão esférica e bonita era.
As organizações mais antigas e tradicionais questionaram aquele papo de nuvem esférica comunicacional. Aquilo era coisa de publicitário desocupado. Aquelas novas empresas, conhecidas com startup’s, eram tremendas ilusões para tirar dinheiro de trouxa, pois não adicionava nada de físico e concreto em termos de negócios. Fora o disparate de alegar que havia uma nuvem de prosperidade que um dia todos notariam bastava acreditar.
O caso foi levado às autoridades competentes. Essas julgaram procedente o lado mais conservador da questão. Fizeram um dossiê com mais de 5.000 páginas que provaram a prática do truque dos tempos de Moisés: a venda de um lugar nas nuvens que nem sequer existe.
Após essa sentença deixou de ser inovador andar pela cidade esférica. Aqueles artistas, intelectuais, ativistas, disseram que não havia mais tempo para desperdiçar com ela. Fizeram notas e mais notas para explicar como uma cidade tão bonita tornou-se tão feia. Anexado às notas havia a prova científica que nem esférica a cidade era: detectou-se um abaulamento em seus pólos.
Os moradores antigos apreciaram essa reviravolta. Afinal, agora poderiam andar novamente pelas ruas e sentir a luz outrora turvada pelas idiotices de Iaba Quib. Alguns retirantes são temporários, outros definitivos. O divertido mesmo é ler a nuvem de razões para não permanecer na cidade esférica.
Você conhece alguma?



